Mundo árabe é opção para intercâmbio
Julia Dietrich, Aprendiz - guia de empregos
“Minha experiência no Oriente foi fundamental. É uma cultura muito original, rica e antiga e que ainda não foi contaminada pela ordem do mundo globalizado”. A afirmação é do estudante de Geografia, Bruno Bortoli, 19 anos, que ao invés de optar pela Europa ou Estados Unidos, fez intercâmbio de 11 meses no Egito.
Bortoli viajou como bolsista e concluiu o último ano do Ensino Médio em uma escola americana no Cairo. “Minhas aulas eram em inglês, mas as de religião em árabe”, conta ele que viveu com uma família muçulmana e diz ter aprendido muito com a religião. “Nós só vemos as notícias dos fundamentalistas na mídia. O Islã não é assim, é uma religião como qualquer outra e, diferentemente do que se imagina, não há preconceito”, diz, afirmando que mesmo sendo católico não sofreu discriminação por seu credo.
O futuro geógrafo, embora ainda faça parte de uma minoria de jovens que busca destinos diferentes para suas jornadas de aprendizado, pertence a uma nova tendência proposta pelo Ministério da Educação (MEC). Por meio do texto da assessoria de imprensa do órgão, para o professor Alessandro Candeas, é orientação do próprio ministro Fernando Haddad, maior integração com os países do Oriente Médio.
Entre fevereiro e março deste ano, o ministro e a comitiva do MEC partiram para países como Líbano, Síria e Egito para intensificar os laços com o Brasil e propor políticas educacionais conjuntas. O projeto inclui pontes entre as universidades e escolas dos países e intercâmbio de profissionais.
Nessa perspectiva, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Baptista Vargens, acabou de lançar, em conjunto com um grupo de estudantes, o livro “Português para falantes árabes” que apresenta metodologia de ensino específica para esse contingente de interessados. “Há cada vez mais procura de árabes que querem estudar e morar no Brasil, numa perspectiva, inclusive, de melhorar de vida”, observa Vargens.
Vargens que teve a idéia do projeto entre 1992 e 1994, quando foi professor em uma universidade no Marrocos, acredita que o intercâmbio entre países árabes e o Brasil é fundamental, não só pelo grande número de descendentes que moram no país, mas pela intensa presença da cultura árabe na história brasileira. “Cerca de 1.500 muçulmanos aportaram no Brasil na época do descobrimento. Oriundos da colônia que vivia em Portugal, com a queda de Granada, na Espanha, eles rumaram para cá e trouxeram com eles sua língua e práticas culturais”, verifica.
Em 1853, por exemplo, os muçulmanos africanos lideraram a revolta dos malês. Eles representavam a parcela de escravos que sabia ler e escrever em um idioma (o árabe) que era desconhecido das autoridades. “Logo, podemos observar que, inclusive para estudar a própria história brasileira, precisamos cada vez mais de especialistas em árabe”, acredita Vargens.
Bortoli, que recentemente voltou a estudar o idioma, conta que na época que viveu no Egito, apesar das dificuldades, conseguia se comunicar bem com as pessoas. “É uma língua muito rica e foi super interessante aprendê-la, ainda mais pensando no que quero fazer profissionalmente”, diz ao indicar que pretende estudar geografia cultural e história e formação de povos.
O estudante conta também que a experiência de viver em outra religião e conhecê-la de perto foi muito importante para desmistificar mitos e preconceitos. “Minha família e amigos tinham um respeito muito grande pela fé e a incorporavam em suas práticas diárias. Cheguei a rezar com eles e até freqüentar mesquitas para mostrar minha admiração e eles sempre retribuíram, me tratando muito bem e mostrando interesse pela minha cultura”, observa.
Ele aprendeu a cozinhar com a sua mãe, passava horas conversando com um de seus irmãos sobre arquitetura egípcia e foi festejado por todos na escola. “Diferentemente dos meus colegas que reclamaram de ser recebidos com mais frieza pelos europeus, todos no Egito queriam me abraçar, me beijar, me conhecer”, comemora.
Sobre possível choque cultural, Bortoli acredita que é necessário se preparar antes. “Estudar como eles se organizam e como funciona a vida lá me ajudou muito, pois quando cheguei pude aceitar e realmente me abrir para conhecer uma cultura tão diferente”, acredita, dizendo realmente ter vivido a experiência como um verdadeiro egípcio.
A língua
O professor Vargens conta que o português e o árabe são línguas muito diferentes e que por isso necessitam de uma metodologia bastante específica. “Por exemplo, no árabe, que é um idioma de origem semita, existe flexão de gênero no verbo”, observa. Tamanho foi o sucesso do livro, que a Organização das Nações Unidas (ONU) replicou o material para ser utilizado em campos de refugiados Palestinos na Jordânia. O pesquisador conta também que uma de suas alunas envolvidas no projeto recebeu bolsa do governo para ensinar português em uma universidade de Damasco, na Síria.
No mês de julho, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), no Brasil, anunciou o recebimento de cerca de 100 palestinos que buscam novas perspectivas de vida. Tanto para o MEC, quanto para Vargens é de fundamental importância se preparar para atender essa nova população. Intercâmbios tanto de estudantes brasileiros para países árabes, quanto de árabes para o Brasil, é uma tendência cada vez mais forte, e um esforço das instituições de ensino e da sociedade se faz cada vez mais premente. “Aceitar o outro e se dispor ao outro é fundamental no mundo atual”, conclui Bortoli.
Julia Dietrich, Aprendiz - guia de empregos
“Minha experiência no Oriente foi fundamental. É uma cultura muito original, rica e antiga e que ainda não foi contaminada pela ordem do mundo globalizado”. A afirmação é do estudante de Geografia, Bruno Bortoli, 19 anos, que ao invés de optar pela Europa ou Estados Unidos, fez intercâmbio de 11 meses no Egito.
Bortoli viajou como bolsista e concluiu o último ano do Ensino Médio em uma escola americana no Cairo. “Minhas aulas eram em inglês, mas as de religião em árabe”, conta ele que viveu com uma família muçulmana e diz ter aprendido muito com a religião. “Nós só vemos as notícias dos fundamentalistas na mídia. O Islã não é assim, é uma religião como qualquer outra e, diferentemente do que se imagina, não há preconceito”, diz, afirmando que mesmo sendo católico não sofreu discriminação por seu credo.
O futuro geógrafo, embora ainda faça parte de uma minoria de jovens que busca destinos diferentes para suas jornadas de aprendizado, pertence a uma nova tendência proposta pelo Ministério da Educação (MEC). Por meio do texto da assessoria de imprensa do órgão, para o professor Alessandro Candeas, é orientação do próprio ministro Fernando Haddad, maior integração com os países do Oriente Médio.
Entre fevereiro e março deste ano, o ministro e a comitiva do MEC partiram para países como Líbano, Síria e Egito para intensificar os laços com o Brasil e propor políticas educacionais conjuntas. O projeto inclui pontes entre as universidades e escolas dos países e intercâmbio de profissionais.
Nessa perspectiva, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Baptista Vargens, acabou de lançar, em conjunto com um grupo de estudantes, o livro “Português para falantes árabes” que apresenta metodologia de ensino específica para esse contingente de interessados. “Há cada vez mais procura de árabes que querem estudar e morar no Brasil, numa perspectiva, inclusive, de melhorar de vida”, observa Vargens.
Vargens que teve a idéia do projeto entre 1992 e 1994, quando foi professor em uma universidade no Marrocos, acredita que o intercâmbio entre países árabes e o Brasil é fundamental, não só pelo grande número de descendentes que moram no país, mas pela intensa presença da cultura árabe na história brasileira. “Cerca de 1.500 muçulmanos aportaram no Brasil na época do descobrimento. Oriundos da colônia que vivia em Portugal, com a queda de Granada, na Espanha, eles rumaram para cá e trouxeram com eles sua língua e práticas culturais”, verifica.
Em 1853, por exemplo, os muçulmanos africanos lideraram a revolta dos malês. Eles representavam a parcela de escravos que sabia ler e escrever em um idioma (o árabe) que era desconhecido das autoridades. “Logo, podemos observar que, inclusive para estudar a própria história brasileira, precisamos cada vez mais de especialistas em árabe”, acredita Vargens.
Bortoli, que recentemente voltou a estudar o idioma, conta que na época que viveu no Egito, apesar das dificuldades, conseguia se comunicar bem com as pessoas. “É uma língua muito rica e foi super interessante aprendê-la, ainda mais pensando no que quero fazer profissionalmente”, diz ao indicar que pretende estudar geografia cultural e história e formação de povos.
O estudante conta também que a experiência de viver em outra religião e conhecê-la de perto foi muito importante para desmistificar mitos e preconceitos. “Minha família e amigos tinham um respeito muito grande pela fé e a incorporavam em suas práticas diárias. Cheguei a rezar com eles e até freqüentar mesquitas para mostrar minha admiração e eles sempre retribuíram, me tratando muito bem e mostrando interesse pela minha cultura”, observa.
Ele aprendeu a cozinhar com a sua mãe, passava horas conversando com um de seus irmãos sobre arquitetura egípcia e foi festejado por todos na escola. “Diferentemente dos meus colegas que reclamaram de ser recebidos com mais frieza pelos europeus, todos no Egito queriam me abraçar, me beijar, me conhecer”, comemora.
Sobre possível choque cultural, Bortoli acredita que é necessário se preparar antes. “Estudar como eles se organizam e como funciona a vida lá me ajudou muito, pois quando cheguei pude aceitar e realmente me abrir para conhecer uma cultura tão diferente”, acredita, dizendo realmente ter vivido a experiência como um verdadeiro egípcio.
A língua
O professor Vargens conta que o português e o árabe são línguas muito diferentes e que por isso necessitam de uma metodologia bastante específica. “Por exemplo, no árabe, que é um idioma de origem semita, existe flexão de gênero no verbo”, observa. Tamanho foi o sucesso do livro, que a Organização das Nações Unidas (ONU) replicou o material para ser utilizado em campos de refugiados Palestinos na Jordânia. O pesquisador conta também que uma de suas alunas envolvidas no projeto recebeu bolsa do governo para ensinar português em uma universidade de Damasco, na Síria.
No mês de julho, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), no Brasil, anunciou o recebimento de cerca de 100 palestinos que buscam novas perspectivas de vida. Tanto para o MEC, quanto para Vargens é de fundamental importância se preparar para atender essa nova população. Intercâmbios tanto de estudantes brasileiros para países árabes, quanto de árabes para o Brasil, é uma tendência cada vez mais forte, e um esforço das instituições de ensino e da sociedade se faz cada vez mais premente. “Aceitar o outro e se dispor ao outro é fundamental no mundo atual”, conclui Bortoli.

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