UM NOVO GOLPE DO EMPREGO
CARINE APRILE IERVESE
caprile@grupoatarde.com.br
A nova modalidade de fraude aplicada para atrair pessoas em busca de melhores colocações no mercado de trabalho tem nome: golpe do emprego.Os principais alvos das supostas agências de recrutamento são aqueles que possuem alta qualificação e que já estão trabalhando.Ou seja, pessoas com forte potencial para pagar as taxas cobradas pelos estelionatários.O golpe começa quando os candidatos mandam seus currículos para o e-mail da suposta empresa, que divulga o endereço eletrônico através de anúncios em jornais. Há casos em que estas agências também buscam suas vítimas em banco de currículos na internet.Com os dados em mãos, um representante da suposta recrutadora entra em contato com o candidato e oferece propostas tentadoras de emprego.“Há um ano, ligaram para o meu celular dizendo que tinham uma ótima oportunidade para mim, mas que eu deveria estar na empresa de recolocação, que fica em São Paulo, no dia seguinte”, conta a relações-públicas Juliana Franco.Esta é outra característica da fraude. A “entrevista de emprego” é sempre no dia seguinte à ligação, para não dar tempo do candidato pesquisar sobre a empresa, nem trocar idéia com amigos ou parentes.Juliana aproveitou que estava mesmo indo a São Paulo e foi até a agência. “Ao chegar lá, o emprego ‘sob medida’, exigia um laudo psicológico de R$ 2 mil, mais R$ 4.500 para recolocação”, lembra ela.Segundo ela, não é difícil cair na armadilha porque tudo leva a crer que a empresa é séria. “As instalações eram lindíssimas, tudo muito luxuoso. Fui brevemente atendida por uma psicóloga que aplicou alguns testes e em seguida me direcionou para a gerência, que passou todos os detalhes da suposta vaga. Salário altíssimo, benefícios e o sonho de uma multinacional”, recorda a executiva.
SERVIÇO Saiba onde denunciar (na Bahia)
1º Juizado Cível de Defesa do Consumidor Tel.: 71 3320 6980
2º Juizado Cível de Defesa do Consumidor Tel.: 71 3320 6983
Delegacia de Defesa do Consumidor Tel.: 71 3321 8379
Ministério Público do Trabalho 5ª Região Bahia Tel.: 71 3324 3400 E-mail: denuncia@prt5.mpt.gov.br
Procon – Superintendência de Proteção e Defesa do Consumidor Tel.: 71 3116 8514
Estelionatários facilitam até forma de pagamento das taxas
Depois que recebeu a proposta de emprego dos seus sonhos, a relações-públicas Juliana Franco não aceitou pagar as altas taxas cobradas pela agência de recolocação, que totalizavam R$ 6.500.”Na mesma hora agradeci e informei que não tinha interesse nesse investimento, que para mim era demasiadamente alto para o risco que existia, pois eles não garantiam a vaga. Quando o candidato fala isso, imediatamente eles oferecem infinitas formas de parcelamento em todos os cartões de crédito“, conta.Como os fraudadores perceberam que Juliana não fecharia negócio, lhe fizeram outra proposta: que ela pagasse 25% dos três primeiros salários após a recolocação. ”Como não tinha nada a perder, aceitei“.A executiva voltou para Salvador e, achando a situação estranha, começou a pesquisar sobre a organização na internet. ”Quando eles me ligaram de novo eu já tinha visto diversas denúncias contra eles em grupos de discussão e já havia denunciado o caso ao Ministério Público“, afirma ela.O site que Juliana acessou e descobriu relatos de outras pessoas que haviam caído na armadilha foi o golperh.fotopages.com. Lá é possível verificar os nomes de 67 empresas que, segundo os participantes do grupo de discussão, já aplicaram o golpe. Há também diversos relatos de como aconteceram os casos.Na Bahia, não existem estatísticas do registro de queixas do golpe do emprego. ”Aqui, esta é uma prática nova“, justifica Pedro Lino de Carvalho Junior, coordenador da Codin – Coordenadoria de Defesa dos Interesses Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos do Ministério Público do Trabalho.Segundo ele, nenhuma empresa pode cobrar taxa para recrutar trabalhador. ”O ônus deve ser da empresa contratante. A companhia não pode nem descontar as despesas desses serviços no salário do funcionário após a contratação“, adverte.
Golpistas são atraentes e têm estratégias para convencer as vítimas
Ricardo (nome fictício) é formado em Administração de Empresas e fala fluentemente o inglês e o alemão.Interessado em encontrar um emprego que lhe proporcionasse mais tempo para investir em pós-graduação, ele foi em busca de empresas que contratassem executivos qualificados. Essa procura resultou em muitos aborrecimentos e em quase um dia inteiro numa delegacia no Pelourinho, onde prestou depoimento contra duas supostas golpistas.Tudo começou quando ele viu um anúncio no jornal que prometia boas oportunidades e resolveu enviar o seu currículo para o e-mail divulgado. “Me ligaram de um telefone de São Paulo querendo marcar uma entrevista comigo. Perguntei qual era a vaga e ela disse que não poderia dizer, que só informaria no dia e no local da entrevista. Até aí estava tudo normal, porque as empresas de recursos humanos geralmente agem assim.Então eu fui até o local marcado, já que elas vieram para Salvador e reservaram um salão de eventos em um hotel na Boca do Rio“, conta Ricardo, lembrando que havia outros candidatos aguardando atendimento.”Falei quais eram as minhas aspirações, como faixa salarial e cargo, elas me disseram que havia uma vaga de gerente regional de vendas para o ramo alimentício, justamente na área que já havia trabalhado e ofereceram uma série de benefícios e o salário que eu procurava: R$ 4.600“.Mas as recrutadoras informaram a Ricardo que havia outro candidato com as mesmas características e que a vaga não era garantida. Com isso, ofereceram-lhe o serviço de consultoria para encontrar uma oportunidade de acordo com as pretensões dele, caso aquela não se efetivasse. O serviço custaria R$ 690 e podia ser pago no cartão de crédito. ”Estranhei como uma conceituada empresa de RH poderia utilizar ainda aquele antiga máquina manual para passar o cartão. Mas as duas vendiam muito bem o peixe, eram profissionais e muito atraentes. Uma delas era loira e tinha olhos azuis“.Depois da entrevista, soube que a dona do hotel estava na delegacia prestando queixa contra as duas recrutadoras, pois uma outra candidata estava com uma página da internet com os nomes das empresas golpistas, entre elas a que ele tinha acabado de fechar negócio. ”Cancelei o débito e fui até a delegacia prestar o meu depoimento. Foi muito constrangedor, não desejo isso a ninguém. É um golpe muito perigoso.Fiquei cego“, diz ele.
Saiba como diferenciar a oportunidade real de uma possível fraude
A prudência sempre deve nortear quem está à procura de uma vaga de trabalho. Como também existem headhunters sérios, é conveniente não desconsiderar todos os convites para entrevistas de emprego, desde que se tome alguns cuidados para não cair no golpe do e m p re g o .A primeira cautela é nunca desembolsar qualquer valor para conquistar uma vaga. Outra dica é desconfiar sempre de ofertas de emprego que se encaixam perfeitamente com as suas necessidades e até as que são melhores do que você esperava. Isso porque as empresas que praticam o golpe solicitam que as vítimas preencham previamente um formulário com as principais expectativas que elas buscam para o futuro emprego e usam isso para persuadir.”Se a empresa cobra para fazer testes ou treinamentos, já é um bom motivo para você suspeitar.Outro fator que pode apontar uma fraude é se a empresa solicitar que a pessoa de outro Estado se desloque. Uma organização séria vai até você ou paga a sua passagem“, diz Juliana Franco que, depois de ter tido contato com uma organização que aplicava golpes, fez diversas pesquisas sobre o assunto na internet.Aliás, esta é uma boa maneira de se precaver. Antes de ir para a entrevista marcada, o profissional deve fazer uma busca na internet, com o nome da empresa que está fazendo a seleção e identificar se há denúncias.”Verifique também se existem reclamações nos órgãos de defesa do consumidor“, orienta Nelson Leal, headhunter da Perfilonline.Segundo ele, se o profissional vai contratar serviços de consultoria para recolocação no mercado – o chamado choaching – nunca deve assinar um documento que não contemple as promessas feitas verbalmente. ”Leve o contrato para um advogado analisar e, se você assinou, exija qualidade no serviço.Peça explicações por escrito sobre o seu desempenho em cada treinamento feito“, sugere ele.Se, mesmo tomando esses cuidados, você cair no golpe do emprego, não hesite em denunciar o caso ao Ministério Público, delegacias e Procon. ”As pessoas não registram a queixa por desconhecimento ou por se sentirem constrangidas. Só que, com essa atitude, elas acabam permitindo que a prática continue“, destaca Pedro Lino de Carvalho Júnior, coordenador da Condin, órgão de investigação do Ministério Público do Trabalho.
Projeto de lei quer vetar cobrança
Está em tramitação na Câmara Federal, desde agosto, o Projeto de Lei nº 1.726, que prevê a proibição de cobrança de qualquer taxa para os candidatos a um emprego, mesmo que seja para cadastrar o currículo num banco de dados na inter net.“A agência de colocação de mão-de-obra, que tenha por finalidade selecionar, treinar e colocar mão-de-obra no mercado de trabalho, mesmo que funcione em meio digital, fica proibida de cobrar previamente qualquer taxa título de cadastramento de trabalhadores interessados em conseguir emprego ou serviço”, diz o artigo 1º do projeto de lei, de autoria do deputado federal Reinaldo Nogueira (PDT-SP).Se for aprovada, as empresas que descumprirem a nova legislação podem pagar multas que chegam a até R$ 3 mil. E a organização que usar o cadastro de trabalhadores para finalidades diferentes da atividade de colocação de mão-de-obra está sujeita a pagar multa administrativa de até R$ 100 mil.“Concordo com esse projeto de lei, pois é interessante no sentido de impedir a cobrança de qualquer tipo de taxa. Mas, independe do projeto ser aprovado, com a legislação vigente, já temos como reprimir o golpe do emprego”, explica Pedro Lino de Carvalho Junior, coordenador da Codin – Coordenadoria de Defesa dos Interesses Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos do Ministério Público do Trabalho, 5ª Região.PERMITIDO – Por enquanto, alguns serviços pagos de intermediação, consultoria e recrutamento ainda são permitidos como explica o advogado e assessor técnico do Procon Augusto Cruz.“O banco de currículos eletrônico, onde o candidato paga uma taxa para manter seus dados cadastrais disponíveis para as empresas que desejam contratar é um serviço permitido. Existe uma série de empresas idôneas que fazem isso”, afirma Cruz.Segundo ele, o candidato nunca deve, no entanto, se iludir por publicidade do tipo “seu emprego está garantido”. “Isso não existe.Nenhuma empresa pode garantir emprego, já que depende do consentimento de terceiros para a contratação”, explica o advogado.Outra prática comum e permitida no mundo da recolocação profissional, de acordo com Cruz, é o serviço de coaching. O headhunter– caçador de talentos – Nelson Leal explica que este é um trabalho personalizado, feito para alavancar a carreira dos executivos quando estes se encontram em fase de estagnação.“A consultoria tem como objetivo a reorientação de carreira para que o executivo assuma a gestão da sua própria vida profissional, sabendo administrar suas habilidades e competências e tornar-se mais competitivo para o mercado de trabalho”, afirma Leal.Já o trabalho de um headhunter é diferente: “Este é um consultor cujo trabalho se resume em recrutar e selecionar, no mercado, profissionais especializados para um cargo estratégico na organização que contratou seu serviço. Geralmente vamos atrás de pessoas que já estão atuando, pois são elas que possuem o perfil adequado para o cargo disponível”, diz Leal.Mas o consultor ressalta que o verdadeiro headhunter nunca cobra taxas para o profissional que ele busca. “Quem banca todos os custos é a empresa”, frisa ele.

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